Em alta, o mercado mundial de açúcar bate às portas das usinas brasileiras

País responde por 43% das exportações e, em quatro anos, pode crescer ainda mais essa participação

Em alta, o mercado mundial de açúcar bate às portas das usinas brasileiras
Foto: UNICA

O mercado mundial de açúcar tende a seguir em alta nos próximos anos. Trata-se de uma excelente notícia para as usinas produtoras do Brasil, já que o país lidera em exportações do alimento. 

Tome, como exemplo, o saldo de embarques para o mundo livre: os produtores brasileiros responderam por 43% do total, seguido da Tailândia (14%) e da Índia (8%). 

As informações são da Archer Consulting (leia mais a respeito aqui) e têm por base os últimos seis ciclos produtivos ou safras, como são chamados no setor sucroenergético. 

Em recente webinar da FENASUCRO & AGROCANA TRENDS, Marcos Fava Neves, professor da USP, lembrou que o açúcar brasileiro é estruturado para responder por 46% do total do mercado mundial. 

É uma fatia pra lá de expressiva, mas o apetite pelo alimento exigirá participação maior do Brasil. 

Embalados pela retomada econômica, somada ao crescimento vegetativo da população, muitos países, entre eles gigantes como a China, projetam saltos de crescimento no mercado consumidor de açúcar. 

Para se ter ideia, a Archer destaca projeção, a partir de dados do Banco Mundial, de que em cinco anos o mundo consumirá um adicional de 9 milhões de toneladas de açúcar. 

É preciso lembrar que a produção mundial em 2020 esbarrou em 181 milhões de toneladas, montante 9% acima do fabricado no ano anterior (leia mais aqui). 

No entanto, o consumo mundial chegou a 174 milhões de toneladas, conforme o Departamento de Agricultura (USDA) do governo dos EUA. 

Detalhe: a Archer estima que daqui quatro anos, na safra 2026/27, o consumo mundial do adoçante suba para 184,4 milhões de toneladas. 

Vale indicar que o mercado conta também com estoques. Mas esses não dão conta de atender a um universo no qual a produção cresce 1.01% ao ano, ante avanço anual de 0.46% no consumo. 

Por isso o cenário é promissor para o açúcar brasileiro. 

Mas aí vem a pergunta: as usinas terão como suprir esse mercado? 

Digamos que não. 

E qual o motivo da negativa?

Tome por base a safra ainda vigente na região Centro-Sul, responsável por 90% da produção sucroenergética do país.

Até o dia 1° de novembro, as usinas tinham produzido 31,2 milhões de toneladas de açúcar. É um volume 14% inferior ao do ciclo anterior, devido à queda de 10% na oferta de cana, penalizada pela estiagem e, também, pela geada registrada neste ano. 

Essa produção dificilmente crescerá porque, conforme a UNICA, entidade representativa do setor, a safra praticamente já terminou na maioria das usinas da região (leia aqui). 

No caso, há 59 usinas das regiões Norte e Nordeste que estão em safra até o primeiro trimestre de 2021. A produção delas, no entanto, não irá gerar reforço expressivo na oferta. 

E o que fazer? 

A receita seria aumentar a oferta de açúcar pelas usinas brasileiras já que, conforme a projeção da Archer, o país tem chances concretas de participar com 6 milhões de toneladas adicionais na safra 2026/27. 

Até daria, mas as empresas do setor teriam de aportar investimentos imediatos em canaviais e nos parques industriais.

Isso porque, segundo a consultoria, o Brasil precisaria ampliar a produção em 125 milhões de toneladas (acima das atuais 640 milhões de toneladas) em um investimento entre US$ 16 bilhões e US$ 20 bilhões, equivalentes a 25 novas usinas moendo 5 milhões de toneladas de cana.

Essa projeção é tentadora, mas difícil de ser cumprida por motivos que reúnem a falta de aportes pelas empresas. 

Além disso, apesar de as cotações do açúcar no mercado internacional seguirem em alta, o que em tese gera ganhos em reais, a inflação em alta corrói tais rendimentos. 

Em síntese, o crescente mercado mundial de açúcar bate e continuará batendo às portas das usinas brasileiras. E o desenrolar da situação integra uma novela com emocionantes capítulos pela frente.