Começa a temporada de investimento nos canaviais para obter produtividade 

Período exige também agir contra doenças da cana; Embrapa entra em cena com pesquisa que indica ‘remédios’  

Ganha força neste fim de ano os chamados tratos culturais nos canaviais em estados da região Centro-Sul. É que o período coincide com o fim da produção (ou safra, no jargão do setor) e a temporada de chuvas. A combinação é perfeita para o crescimento da cana-de-açúcar, seja a nova (cuja gestação demora entre um ano e um ano e meio) ou a denominada soca (que rebrota para novo corte).  No entanto, este fim de 2021 e começo de 2022 serão desafiadores para a safra 2022/2023, que oficialmente começa em 1º de abril e segue até fim de março do ano seguinte.  

Desafiador? Por qual motivo? 

Em resumo, as mais de 200 usinas produtoras do Centro-Sul saem de uma safra (a 2021/22) marcada pela quebra média de 11% na oferta da matéria-prima de etanol, açúcar e bioeletricidade.  

No caso, as usinas dessa região do País tinham chegado a uma moagem de 517 milhões de toneladas, justamente 11,80% abaixo das 586 milhões de toneladas processadas na safra anterior.  

Vale lembrar que esse resultado foi apurado até 16/11 pela UNICA e, como descrito, oficialmente o ciclo vai até março próximo (leia aqui os dados da entidade). Significa, assim, que ainda deve haver moagem de cana. Mas ela deve ser bem residual porque quase todas as unidades devem encerrar a safra ainda em dezembro.  

Mas e a quebra na oferta? 

É simples explicar: a quebra se deve à estiagem, geada e queimadas registradas ao longo deste ano de 2021.  

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Corrida em busca de produtividade 

Para responder sobre o desafio para a próxima safra, já se considera quebra também para o ciclo que começa oficialmente em abril. Por isso, para tentar minimizar o problema, é hora de correr pela produtividade dos canaviais. E isso começa exatamente agora.  

Melhor: começa agora porque aproveita-se o período de fim de safra com época de chuvas, embora há canaviais que já recebem tratos culturais ao longo dos meses.  

Agora outro desafio: buscar melhor produtividade é a chave para garantir oferta de cana nas plantas industriais, já que não se tem qualquer certeza de que haverá volume de matéria-prima.  

Sendo assim, todo planejamento e prática nos tratos culturais merecem tiro certo. Não dá para errar.  

É aí que entram fertilizantes, adubos e outros integrantes dos tratos culturais (saiba mais aqui).  

E entram, também, os remédios contra as doenças dos canaviais. Sim, elas seguem firmes e fortes apesar do impacto de possíveis estiagens. Ou seja: os problemas climáticos podem afetar a produção, mas as doenças são um risco extra.  

De seu lado, a lista de doenças da cana inclui, entre outras, a ferrugem marrom, ferrugem alaranjada e a podridão vermelha.  

Em síntese, essas pragas, somadas às foliares emergentes (ou doenças foliares) e mancha anelar diminuem a biomassa seca da cana. Essa biomassa é que servirá de matéria-prima para a produção de açúcar ou de etanol.  

É aí que entra uma novidade a partir da Embrapa Meio Ambiente, unidade da Embrapa por sua vez vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.  

Trata-se de estudo no qual a unidade revela que o uso de inoculantes para fixação biológica de nitrogênio (FBN) na cana reduz em até 16% a severidade das doenças foliares.  

Pode parecer estranho para quem não é do ramo agrícola, mas essa fixação biológica, segundo a unidade, é prática conservadora já usada com sucesso nas lavouras brasileiras de soja.  

No caso da soja, a fixação de nitrogênio por inoculantes, cuja tecnologia foi desenvolvida pela Embrapa Agrobiologia, é aplicada em área superior a 33 milhões de hectares em economia anual que, pelas contas da Embrapa, chega a US$ 8 bilhões.  

Economia semelhante é tudo que o setor sucroenergético quer. Para se ter ideia, em projeção do Energia Que Fala Com Você a partir de fontes técnicas, o setor investe perto de R$ 29 bilhões em tratos por ano. O montante leva em conta que há 7 milhões de hectares plantados com cana e nos quais 15% são cana nova (plantio a médios R$ 8 mil por hectare) e 85% de cana soca (trato a R$ 3,5 mil por hectare).  

E como é o trabalho da Embrapa junto a cana?  

Em primeiro lugar, o estudo atesta que pela primeira vez o uso de inoculantes para fixação de nitrogênio teve sua eficiência comprovada com a cana. Assim, a pesquisa pode beneficiar o manejo integrado de doenças emergentes e abrir novos mercados para inoculantes no País.  

Já em segundo lugar, além da FBN, que mostrou maior eficiência na redução da severidade das enfermidades (mancha anelar e podridão vermelha), também foram testados o cultivo mínimo, preparo convencional e o sistema de plantio direto (SPD). 

Segundo Katia Nechet, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente, alguns mecanismos de controle podem estar envolvidos na interação entre os patógenos e as bactérias diazotróficas (capazes de fixar o nitrogênio no solo) utilizadas na FBN, tais como antagonismo, indução de resistência e competição.  

Enfim, essas reações têm sido relatadas durante a adaptação dos hospedeiros às bactérias em condições de estresse ambiental.  

Clique aqui para acessar pdf do trabalho.