Missão vai à Índia promover o etanol brasileiro

Técnicos do governo e de executivos do setor sucroenergético integram grupo em viagem marcada para este mês 

Não é novidade dizer que o etanol seja estratégico enquanto combustível renovável e redutor de emissão de gases de efeito estufa (GEEs). Energia Que Fala Com Você, por exemplo, já demonstrou essa importância anteriormente (leia aqui).  

Novidade, no caso, é que essa estratégia do biocombustível começa a avançar mundialmente.  

Este mês, representantes do governo federal e executivos de instituições e de empresas do setor sucroenergético integrarão missão em viagem à Índia.  

O objetivo é apresentar a expertise do etanol, uma vez que o Brasil detém tecnologia de sobra sobre o tema há mais de 40 anos.  

“A expectativa é de uma missão de alto nível com stakeholders para levar toda a experiência brasileira”, destacou Evandro Gussi, presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA) em entrevista coletiva que a entidade representativa do setor promoveu no último mês de dezembro.  

Em tempo: Gussi adiantou as informações lembrando que a missão é coordenada pelos ministérios de Minas e Energia e de Relações Exteriores.  

O grupo deverá contar com presenças de executivos da Anfavea (entidade representativa das montadoras de veículos) e de indústrias como Volks e Toyota. “Estarei junto, ao lado do diretor executivo da UNICA, Eduardo Leão de Souza”, lembrou Gussi, destacando que a programação inclui rodada de palestras. 

“A Índia já divulgou a intenção de construir um mini Brasil de etanol e fazemos todo esforço para que os indianos possam fazer isso”, disse o presidente da UNICA.  

Indianos: mais etanol na gasolina 

A missão à Índia marca ponto em um período no qual o país investe para colocar em prática o anunciado aumento de adição de etanol à gasolina. Atualmente, a mistura é de 10% e deve ir para 20% nos próximos anos por lá. Por sua vez, o aumento representa uma demanda anual de mais 4 bilhões de litros do biocombustível por ano. Em resumo, há pelo menos dois motivos para este aumento de mistura: reduzir a importação de gasolina e diminuir as emissões de dióxido de carbono (CO2) em quase 100 milhões de toneladas anuais.  

Os motivos citados no parágrafo anterior são diretos. Mas há avanços que a Índia também poderá aproveitar com o biocombustível. Gussi destacou por exemplo que a tendência mundial é a de mobilidade sustentada. Ou seja, se locomover com baixa emissão de gases de efeito estufa. Para tanto, disse, o mercado oferece respostas tecnológicas e uma delas é o processo de eletrificação.  

Daí vem a pergunta: se a tendência é pela eletrificação, como fica o etanol?  

Gussi: “o etanol é uma tecnologia conhecida, testada, aprovada, replicável (pode ocorrer em outras partes do mundo), é a resposta tecnológica para a mobilidade sustentada.”  

“Seria soberbo, arrogante, dizer que não se quer o elétrico em favor do etanol”, citou.  

Mais: é natural que o mercado, as instituições, a geografia, esse complexo ecossistema que é o mercado dite a melhor maneira de reduzir emissões com a melhor alocação de recursos.  

Exemplificou: pode-se reduzir 10% das emissões com investimentos de R$ 1 trilhão, e é possível obter a mesma redução sem esses gastos, fazendo alusão ao emprego do etanol.  

“O etanol é uma resposta fantástica para o Brasil e para outras geografias”, afirmou.  

“2021 foi o segundo ano muito difícil para todos nós [por conta da pandemia], mas saímos mais fortes e estamos animados, confiantes de que estamos do lado certo da história, que é o da mobilidade sustentável.” 

Como está a safra 21/22 

A afirmação do presidente da UNICA é respaldada pelos resultados das usinas de cana e de milho do Centro-Sul do país na safra 2021/22, que oficialmente termina no dia 31 de março próximo.  

Confira a seguir resultados da safra 21/22 a partir da apresentação do diretor técnico da UNICA, Antonio de Padua Rodrigues, nesta mesma coletiva promovida pela entidade em dezembro.  

Menos 13,3% de cana 

As intempéries climáticas registradas ao longo do atual ciclo levaram a uma redução na quantidade de cana processada na safra 21/22. 

A estimativa da UNICA é que a safra feche com 525 milhões de toneladas de cana processadas, redução de 13,3% na comparação com os 605 milhões de toneladas no ciclo 20/21. 

Apesar da oferta menor de matéria-prima, o ciclo registrou crescimento da produção de etanol anidro. A expectativa é que o aumento chegue a 13,7% , totalizando cerca de 11 bilhões de litros.  

O volume produzido de hidratado, por sua vez, deve alcançar 16,7 bilhões de litros, registrando queda de 19,3% quando comparado ao ciclo anterior. 

“Essa projeção é reflexo do cenário vivenciado ao longo desta safra. No lado da demanda, sofremos com as restrições de mobilidade. No âmbito da oferta, a lavoura foi impactada pelas geadas e pela seca histórica. Apesar dessa condição, o setor se mostrou resiliente e está conseguindo atender de forma satisfatória a demanda por biocombustível”, destaca Antonio de Padua Rodrigues. 

Produção 

A entidade projeta que 55,13% da cana-de-açúcar processada será destinada à produção de etanol, contra os 53,93% observados no ciclo anterior.  

Com isso, o volume total de etanol produzido deve alcançar 27,7 bilhões de litros, com retração de 8,7% no comparativo com a safra 20/21. 

A produção de açúcar também deve registrar redução de 16,7%: cerca de 32,0 milhões de toneladas na atual safra, ante 38,5 milhões no ciclo anterior. 

Confira imagem da projeção:  

Etanol de milho 

O etanol de milho reforça o incremento. Até março, quando termina a safra de cana, as unidades produtoras do cereal deverão acrescentar 1 bilhão de litros de anidro e hidratado.  

Veja como está a produção a partir de milho: 

Oferta garante abastecimento 

O diretor técnico relatou o esforço de anidro para garantir o nível de mistura de 27% do biocombustível à gasolina. Fora a produção das unidades de cana e de milho, houve a importação, que em 2021 ficou bem abaixo do registrado em 2020.  

“Com os volumes não será preciso importar mais para garantir a oferta até abril próximo, ou seja, os estoques asseguram [o suprimento]”. 

Mercado de açúcar e de etanol 

Do início de 2021 até 1º de dezembro do ano passado, o Brasil havia exportado 25 milhões de toneladas de açúcar, com geração de divisas totalizando US$ 8,43 bilhões. Os principais destinos do adoçante brasileiro foram: China (15,9%), Argélia (8,4%) e Bangladesh (6,8%). 

No mercado interno, a comercialização de açúcar no mesmo período alcançou 7,9 milhões de toneladas, registrando redução de 4,54%. 

No mercado de combustíveis, as vendas de etanol hidratado alcançaram 15,5 bilhões de litros de janeiro até 1º de dezembro de 2021 – queda de 10,8% na comparação com o volume comercializado no mesmo período do ano anterior. 

Projeções para a próxima safra 

E quais são as estimativas para a safra de cana 2022/23, que começa oficialmente em 1º de abril próximo? 

Segundo o diretor técnico da UNICA, a safra em fase final foi semelhante a 2011/2012. Naquela, a produtividade média (em toneladas de cana por hectare – TCH) ficou em 69. Na 21/22, deve fechar em médias 67 TCH. Rodrigues estima que a produtividade possa crescer em 8,5% na 22/23, saindo, assim, de 67 TCH para 73 TCH.  

Quais os motivos dessa alta?  

Em princípio o clima está positivo, com cenário de chuvas positivo também para janeiro, “o que permite bom desempenho do crescimento dos canaviais”. Ele afirma, no entanto, ser impossível afirmar que a oferta de cana irá crescer. Como também não dá para indicar o que ocorrerá com mais de 800 mil hectares afetados pela geada. 

“Mas há expectativa de recuperação”, disse, elencando alguns motivos: há melhor remuneração pela cana, houve mais investimentos em produtos biológicos como micronutrientes, o perfil varietal é mais moderno que na safra 11/12 e os canaviais estão mais sistematizados.     

Enfim, Rodrigues lembra que “viveremos uma ou duas safras para chegar ao potencial de produtividade médio, que é de 85 TCH”.