RenovaBio, avanço global do etanol, logística e agenda ESG: por que eles tendem a avançar em 2022?

Esses foram alguns dos temas debatidos durante programação de conteúdo da Fenasucro & Agrocana Trends em 2021 que trouxeram insights significativos para o setor em 2022  

O setor de bioenergia começa 2022 em ritmo de crescimento. Exceto pela oferta de cana-de-açúcar, que novamente deverá ficar abaixo da média, as empresas de etanol, açúcar e bioeletricidade têm pela frente tendências e oportunidades pra lá de promissoras.  

Essas tendências, no caso, já foram debatidas e apresentadas em 2021 na programação de conteúdo da Fenasucro & Agrocana TRENDS que ofereceu quatro eventos virtuais de suma importância e que abordaram temas que servirão de alavanca para o avanço nacional e mundial do setor neste ano que começa ainda pandêmico.  

O Energia Que Fala Com Você foi atrás para entender como cada um desses temas evoluiu desde então e como irão impactar o setor em 2022.  

RenovaBio 

“O RenovaBio como impulsionador da indústria de base do mercado de bioenergia” foi tema do primeiro conteúdo desta programação, em março passado. Presença de nomes ilustres da nossa indústria como: 

O que eles disseram e como o tema deve evoluir em 2022? Veja a seguir:  

Mauro Mattoso:  

O banco tem o programa BNDES RenovaBio, com validade até dezembro próximo, mas que, segundo ele, pode, no futuro, ser modificado para beneficiar outros elos da cadeia além de unidades produtoras. Além do programa, o executivo lembra que o BNDES “já atua em outros elos da cadeia com outras linhas.” 

Como o BNDES pode auxiliar em 2022 

Focado no estímulo do consumo de biocombustíveis por conta também da capacidade deles de reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEEs), na comparação com os combustíveis fósseis, o RenovaBio está consolidado. O programa entra em 2022 marcado pela necessidade de adicionar as unidades ainda não cadastradas e de melhorar o desempenho (ou ciclo de vida) da produção de etanol das citadas.  

Desta forma, elas reduzirão emissões de GEEs no processo e poderão emitir créditos de descarbonização (CBIOs) com menor volume de litros produzidos. 

É aí que, conforme Energia Que Fala Com Você apurou, o BNDES pode reforçar apoio ao RenovaBio com seu programa de aportes.  

Evandro Gussi:  

O RenovaBio, diz, cria um marco institucional. Tem boa regulação e, assim, o mercado tende a reagir e se desenvolver. “E o que a gente construiu foi uma política [de Estado] na qual o lastro econômico se dá no carbono evitado, que é a moeda do século XXI”.  

Outro ponto destacado do RenovaBio, emenda, é ele privilegiar a eficiência energética, ou seja, valoriza os biocombustíveis e consegue identificar o biocombustível mais energeticamente eficiente e o premia por isso.  

RenovaBio em 2022 

Não tem por que interromper o ciclo de avanço entre as unidades produtoras de biocombustíveis do Brasil. Além disso, os atributos e o escopo do programa tendem a ser exportados para outros países.  

A comitiva de executivos que, coordenada pelo Ministério de Relações Exteriores brasileiro, deverá estar na Índia em janeiro deste ano, pretende, também, incentivar a implantação de programa semelhante no país asiático que se prepara para ampliar a mistura de etanol à gasolina.  

Jacyr Costa Filho:  

O mercado de carbono só cresce na Europa, destacou. Em um ano – entre março de 2020 e igual mês de 2021 – o valor da tonelada praticamente dobrou, chegando a 40 euros. Isso, diz, abre um mercado de carbono para o biocombustível, que pode ‘exportar’ potencial de descarbonização.  

Ele lembra, também, que o produtor de biocombustível cadastrado no RenovaBio tem a comercialização dos créditos de descarbonização, os CBIOs.  

O que se espera em 2022  

O mercado europeu estrutura o mercado de carbono, tema que inclui a taxa de carbono para produtos em circulação – importados e locais. No entanto, os CBIOs tendem a ter posição positiva nesta estruturação. No Brasil, espera-se que 2022 sirva para formalizar pendências que ainda pairam sobre os créditos, caso das tributárias.  

Luis Carlos Jorge Júnior:  

Para a indústria de base, representada pelo CEISE Br, se a unidade produtora estiver capitalizada – e isso também ocorre com a bonificação via CBIOs – ela pode fazer novos investimentos. “E isso puxa a indústria de base, tanto na parte agrícola quanto na industrial”, disse.  

Tendência para 2022 

A indústria de base está pronta para suprir as demandas de ampliação das usinas de cana e de milho. Mas, apesar do ano eleitoral – que tradicionalmente emperra a agilidade de ações tributárias – espera-se a redução do chamado custo Brasil.  

Ou seja: os fornecedores brasileiros do setor de bioenergia têm know how de sobra, mas seus preços no mercado internacional enfrentam concorrentes com tributação inferior, o que os torna atraentes em termos de valores.  

Luis Carlos (Li) Broglio:  

Com unidade fabril em Piracicaba (SP), a General Chains tem investido no emprego de aço inox como matéria-prima. “Com ele, temos observado menos troca de peças durante a manutenção, o que gera efeito de custo e benefício melhor para o cliente”, diz.  

Tendência para 2022: 

O aço inox deve seguir como matéria-prima promissora, até porque, além do melhor custo-benefício, também é ambientalmente melhor. Isso porque gera menos resíduos por trabalhar com material mais limpo no processo de fabricação.  

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Etanol precisa ser transformado em commodity 

“Como potencializar o uso de bioenergia em nível global sem transformar o etanol em commodity?”, tema do conteúdo de maio, praticamente antecedeu o que se tornou posteriormente uma tendência deste biocombustível para 2022. Veja quem participou: 

  • Francis Queen, VP Executivo Etanol, Açúcar e Bioenergia da Raízen;  
  • Pablo Di Si, então presidente e CEO da Volkswagen Brasil e América Latina que em dezembro tornou-se Chairman Executivo da VW América Latina; 
  • Pietro Mendes, Diretor de Biocombustíveis do Ministério de Minas e Energia;  
  • Suresh K. Reddy, Embaixador da Índia no Brasil 

O que eles disseram e como o tema deve evoluir em 2022? 

Pietro Mendes:  

Destacou o programa do Ministério Combustível do Futuro, criado em abril de 2020, com a proposta de medidas para incrementar o uso de combustíveis sustentáveis e de baixa intensidade de carbono. Este programa, relata, busca integrar políticas públicas relacionadas ao setor automotivo e de combustíveis. E juntamente com o RenovaBio, vigente desde janeiro de 2019, o etanol, relata, deve ter espaço no futuro da mobilidade e na redução dos GEEs.  

Tendência para 2022 

O programa Combustível do Futuro coloca em prática suas ações, assim como a tecnologia do etanol brasileiro chega a países que pretendem utilizá-lo como aditivo à gasolina.  

Como já citado, é o caso da Índia e mesmo da China, que tem projeto de adicionar o biocombustível ao combustível de origem fóssil.  

Suresh Reddy: 

Índia e Brasil, disse, têm potencial para suprir a demanda de etanol em escala mundial. Isso porque ambos detêm oferta abastada de cana, com o Brasil detendo know-how há mais de quatro décadas. “Para se ter ideia, duas empresas indianas começaram a atuar neste setor em áreas que equivalem ao território de três ou quatro países europeus”, atesta ele, lembrando que, por isso, a cooperação entre Brasil e Índia é muito importante para a promoção do biocombustível.  

Projeções para 2022 

O setor de bioenergia brasileiro segue a agenda de levar para outros países as vantagens do etanol. No caso, não apenas do biocombustível tradicional, de primeira geração, mas o de segunda, o 2G, que ganha em produtividade por hectare ante o 1G, além de maior potencial de descarbonização.  

Francis Queen: 

O setor sucroenergético brasileiro possui condições plenas de atender à demanda mundial de etanol, disse Francis durante o debate. “Temos expertise de sobra, 400 usinas e mais de 50 mil fornecedores de bens e serviços.” No caso, emenda, além do etanol combustível, o setor tem a oferecer também o destinado a outros fins, como matéria-prima para produzir plástico verde, óleo de aviação SAF, entre outros.  

O executivo lembrou que “com o cenário que vemos pela frente, é fundamental que tenhamos no mercado empresas de bens e serviços no Brasil que estejam estruturadas e possam atender a demanda que teremos.” 

Estimativas para 2022 

A estruturação avaliada pelo VP da Raízen avança entre empresas de bens e serviços do setor, mas muitas precisam de apoio de instituições de financiamento. Mas além dessas, estratégias de financiamentos têm crescido no mercado, caso dos CRAs e de ferramentas financeiras ligadas ao mercado verde (descarbonização). Essas estratégias tendem a facilitar o acesso sem a contrapartida de exigências que burocratizam a entrada dessas empresas.  

Pablo Di Si: 

Segundo Pablo, o etanol é o biocombustível com maior potencial de implementação rápida em comparação com outras fontes de energia.  

“Se comparado com a gasolina, o etanol gera 86% menos emissões”, lembrou ele de outro ponto favorável do biocombustível.  

“A velocidade para continuar essa jornada [pelo etanol] é super-rápida se comparada com a implantação de postos para abastecimento de carros elétricos.” 

O que pode ocorrer em 2022 

Assim como o executivo da VW defende o etanol, esse deverá, sim, seguir nos motores flex (como hidratado) e na gasolina (como anidro adicionado em 27%). Além disso, o etanol é protagonista em desenvolvimento de tecnologias de célula combustível que prometem carregar motores híbridos (eletrificados) em plena movimentação. Esta é uma tendência do etanol para a eletrificação via motores híbridos.  

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Aprendizado com a logística do varejo 

A logística é ingrediente peso-pesado no setor sucroenergético. Dos custos totais da cadeia produtiva de açúcar, etanol e bioeletricidade, 30% são de ordem logística. Assim, a transformação digital com foco na gestão de dados pode ser o caminho para otimizar a logística do setor de bioenergia.  

“O que a cadeia de produção de bioenergia tem a aprender com os gigantes da logística integrada do varejo” foi tema da programação da Fenasucro & Agrocana TRENDS em agosto do ano passado, confira abaixo os debatedores:  

O que eles disseram e como o tema deve evoluir em 2022? 

Dennis Herszkowicz: 

Práticas de logística já são aplicadas, caso do controle de carga, melhor aproveitamento de espaço nos caminhões e entregas em prazos mais curtos. Tudo, no entanto, depende diretamente da gestão de dados.  

“Há uma pressão muito grande no setor de logística e a única resposta está nas tecnologias de dados, informações na nuvem e sistemas de gestão digital”, reforçou.  

Projeção em 2022:  

Os investimentos de empresas do setor sucroenergético em tecnologias de dados, nuvem e gestão digital seguem e tendem a crescer com a chegada da quinta geração de telefonia móvel (5G) a partir do segundo semestre. Essa tecnologia tende a reduzir os custos de softwares e de serviços com o crescimento da demanda e da oferta.  

Fábio Fernandes: 

A troca de informações entre os setores é prioritária, diz. “É fundamental conhecer soluções e compartilhar experiências”, destacou.  

O que deve ocorrer em 2022:  

A sincronia de informações tende a avançar neste ano, seja por conta da chegada de novas tecnologias (5G), seja pela maior integração entre cadeias de setores que têm foco prioritário em logística.  

João Naves:  

Em sua opinião, a atualização constante e a tecnologia são as alternativas para melhorar os processos de gestão logística. “Nós preparamos estruturas com planejamento e digitalização para conseguir fazer o gerenciamento completo”, diz. “E principalmente no agro, a logística tem exigido mais especialização. E, para conseguir ter essa proximidade com o cliente, temos nossos centros de controle operacional”, destacou João Naves.  

Tendência para 2022 

A interação entre setores da economia balizados pela logística é um caminho sem volta. No caso, o cliente usina tende a avançar em implantação de serviços e conhecimento logísticos para, assim, agilizar também a execução de contratos de prestadores de serviços. Aqui, a chegada de tecnologia móvel robusta, caso do 5G, permitirá que essa interação ocorra com rapidez.   

André Rocha:  

O processo logístico da cadeia sucroenergética precisa cada vez ser mais eficiente também por conta dos custos. “Em 2018, por conta da greve dos caminhoneiros, muitos setores sofreram, foram surpreendidos”, lembrou André. Até por conta disso, nos últimos três anos trabalhou-se muito mais com inteligência e estratégia. “Utilizar os instrumentos de TI para fazer o acompanhamento de estoques, de fornecedores e de produtividade para assim sermos cada vez mais eficientes”, destacou ele.  

Projeções para este ano:  

Além da maior oferta de serviços tecnológicos, as empresas de bioenergia seguirão investindo na adequação de suas equipes em conhecimentos de TIC (tecnologia da informação e comunicação) que tendem a ser mais desafiadores e rápidos.  

Marcelo Cosentino: 

“É preciso enxergar o futuro e repensar as estratégias. No caso do varejo, o consumidor foi o grande motor das mudanças e a mesma coisa vai acontecer com o setor de bioenergia, que busca alternativas para se conectar com a demanda”, relatou. Mais: estimou que em um período de dez anos essa transformação digital será a realidade do setor.  

“Saberemos exatamente tudo o que acontecerá em cada hectare. Com o avanço da tecnologia 5G no campo, será mais barato implantar as soluções digitais.”  

Previsões para 2022:  

O barateamento das soluções digitais também para o setor sucroenergético tende a ocorrer já no fim do segundo semestre, quanto as operadoras liberarem serviços por meio do 5G.  

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A estratégia de ESG 

Assim como em outros segmentos do agronegócio, o setor de bioenergia precisa focar em práticas mais sustentáveis e este desafio é condição essencial para o futuro do setor no Brasil.  

Em resumo, essa foi a conclusão do evento de imersão em conteúdo que fechou a programação 2021 da Fenasucro & Agrocana TRENDS – “A agenda ESG, a demanda por energia limpa e o agronegócio – Como associar questões estratégicas para o meio ambiente à demanda por alimentos e energia do mundo?”, em outubro.  

Questões centrais como a crise climática, emissão de gases do efeito estufa e desmatamento foram debatidas entre alguns dos maiores especialistas da indústria, como: 

  • Marcos Fava Neves, Consultor e Professor da FEA-USP Ribeirão Preto e da FGV, e mediador do webinar;  
  • Paulo Artaxo, Professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) e um dos líderes do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC); 
  • Eduardo Bastos, Head de Sustentabilidade na Bayer Crop Science; 
  • Cassiano Ávila, Subsecretário de Infraestrutura da Secretaria de Meio Ambiente e Infraestrutura do Estado de São Paulo; 
  • Renato Zanetti, Superintendente de Excelência Operacional da Tereos. 

O que eles disseram e como o tema deve evoluir em 2022? 

Marcos Fava Neves: 

O agronegócio tem uma “avenida de oportunidades nos próximos anos, mas, para tanto, precisamos ter sustentabilidade, que é o nosso calcanhar de Aquiles”, disse ele, lembrando que é neste tema que o setor é muito cobrado e criticado.  

O que tende a ocorrer:  

As cobranças não irão cessar em 2022, até porque o agro novamente deverá puxar o PIB do país e as exportações de produtos como o açúcar tendem a avançar. Há também o desafio da taxa de carbono em fase de formatação pela União Europeia, o que também pode impactar o agro.  

Paulo Artaxo:  

Sim, existe solução para questões ambientais como a emissão de gases de efeito estufa, os GEEs. Porém, disse ele, o processo não será simples de ser executado.  

“O planeta tem de reduzir, a cada ano, essa emissão em 7%, até 2050 e, a partir daí, se tornar neutro em emissões de carbono. Mas como alcançar isso se, hoje, a produção de alimentos no mundo é responsável por 30% das emissões de gás carbônico?”, questiona.  

Tendência para este ano:  

O setor de bioenergia, produtor do alimento açúcar, tende a avançar em reduções de GEEs por meio, por exemplo, do RenovaBio. Deve seguir ajudando a melhorar a imagem do agro no cenário externo.  

Eduardo Bastos: 

“A visão internacional ainda é muito crítica. Para outros países, ainda não estamos dialogando adequadamente com todo o setor, com todos os clientes, na outra ponta da cadeia. Assim, acabamos tendo uma visão parcial do desafio. Por isso, temos um espaço grande de melhora”, diz.  

Exemplifica: na Bayer, “endereçamos a sustentabilidade em três grandes pilares, redução de 30% das emissões de gases de efeito estufa na agricultura mundial, reduzir o impacto ambiental das tecnologias e melhorar a vida de 100 milhões de pequenos agricultores.” 

Tendência para 2022:  

Ferramentas reconhecidas mundialmente, como o sistema global de certificação renovável I-REC, já são utilizadas por companhias sucroenergéticas. E isso expõe no exterior o comprometimento do setor com práticas ESG. Há também o avanço do RenovaBio, entre outros exemplos.  

Cassiano Ávila 

A parceria entre os setores privado e público são estratégicas para viabilizar iniciativas em ESG. E defendeu, também, o planejamento a longo prazo dessas ações.  

“O estado tem um plano de ação climática baseado na mudança da matriz energética, tudo isso desenvolvido em parceria com a academia e o setor produtivo”, destaca.  

Projeções para este ano:  

As parcerias estão no foco do setor de bioenergia, que deve finalizar neste ano, por exemplo, implantação de fornecimento de gás biometano em Presidente Prudente, fruto de trabalho entre a companhia Cocal e a distribuidora GasBrasiliano, com apoio dos governos municipal e estadual. Exemplos como este estão em formatação no estado de São Paulo.  

Renato Zanetti  

“Ser sustentável é ser economicamente sustentável. Por isso, precisamos buscar benefícios econômicos nos custos operacionais”, diz. Exemplifica: na Tereos, o investimento em biogás da vinhaça, aplicação mais eficiente dos resíduos da produção nas lavouras para substituir fertilizantes, a potencialização de coprodutos e a substituição do combustível fóssil pelo biometano são algumas das atitudes que trazem cada vez mais sustentabilidade. 

Tendência para este ano:  

Em linha com a Tereos, companhias como Raízen, Cocal e Adecoagro estão entre as que também investem em novas soluções de produtos 100% renováveis, caso do biogás e do biometano. Essas iniciativas tendem, em maior ou menor rapidez, também a serem empregadas em mais e mais empresas de bioenergia.  

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