Renovável e limpo, biometano já é disputado pelo mercado 

Resíduos de cana estão entre as fontes do gás verde, empregado em caminhões, tratores e na indústria de fertilizantes 

Limpo e sustentável, o biometano, gás feito a partir da decomposição de matérias orgânicas similar ao gás fóssil, ganhará impulso produtivo no Brasil.  

A Abiogás, entidade representativa do setor, estima que em dez anos a produção de biometano deva atingir 11,7 bilhões de metros cúbicos (m3) anuais e receber investimentos de R$ 50 bilhões.  

No geral, sem citar data específica, a projeção vai além porque o país tem condições de 82 bilhões de m3 anuais.  

Hoje, a oferta desse gás não passa de 730 milhões de m3 ao ano, conforme a entidade, mesmo com o país dotado de mais de 500 usinas de biogás, que é a fonte geradora de biometano.  

Uma explicação para a baixa produção é que o biometano ganhou regulamentação em 2015 e, assim, é uma criança no ecossistema de energias sustentáveis.  

Mas a projeção da Abiogás tem chances garantidas de ser cumprida. Entre os motivos está a oferta abastada de vinhaça e torta de filtro, fontes de biogás – e de biometano.  

Seja uma e outra, ambas são resíduos do processo industrial de cana-de-açúcar.  

Como há quase 300 usinas em operação no país, com 600 milhões de toneladas à disposição, a fabricação média de vinhaça é de 372 bilhões de litros anuais. 

O quanto de biometano será produzido a partir da vinhaça depende da quantidade de metano no biogás e da tecnologia aplicada.  

Mas em um exemplo prático: o Grupo Cocal, com três usinas no interior paulista e que irá ofertar biometano a partir deste 2022, prevê chegar a 25 mil metros cúbicos diários.  

Como a safra em média dura 210 dias, e levando em conta que será gerado biometano em todo esse período, a Cocal ofertará 5,2 milhões de metros cúbicos por ano.  

Agora leve em conta os ganhos do gás natural renovável como combustível de caminhões. Parte desses veículos já tem motor a gás e, assim, o biometano pode substituí-lo de imediato.  

Só aí já tem um excelente ganho ambiental porque ele oferece pegada negativa de carbono.  

Enquanto isso, conforme recortes de montadoras, os motores a diesel geram 85% mais gases de efeito estufa a um custo 44% superior ao do biometano.  

Não é à toa que o gás renovável amplie o leque de uso.  

Em fevereiro, a New Holland, uma das marcas da CNH Industrial, anunciou o início de vendas no Brasil de seu primeiro trator movido a biometano. Os ganhos são semelhantes aos citados no parágrafo anterior.  

Outras aplicações 

Embora o foco como substituto do diesel e do gás convencional em veículos ganhe o holofote, o gás renovável tem outras aplicações nobres.  

Uma delas é a sua utilização para produzir hidrogênio e amônia verde. No caso, a Yara Brasil Fertilizantes, da norueguesa Yara, fechou contrato com a Raízen, joint venture da Shell e da Cosan, para a compra diária de 20 mil m3 por cinco anos.  

A produção de amônia verde é apenas outra das aplicações do biometano. 

Tem aí uma questão: como garantir oferta diante o leque de demanda?  

Só com aumento de produção. E é aí que entra o pacote que o governo federal lança para fomentar a produção e o consumo do gás renovável.  

Em síntese, o pacote incluirá aportes em biogás e biometano no Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento de Infraestrutura (Reidi), que suspende a contribuição de PIS/Cofins sobre investimentos em novas indústrias das áreas de infraestrutura e mobilidade.  

A desoneração deve reduzir em 9% o custo dos investimentos em biometano, destaca o jornal Valor Econômico. 

Se essa redução será ou não suficiente para a entrada de novas plantas industriais, em meio à instabilidade econômica mundial, será preciso esperar. O fato é que há mercado e a cana está pronta para ajudar a gerar mais este ativo renovável e sustentável.