Começa a safra: usinas têm mais cana e soluções contra a escassez de fertilizantes

Mas os custos de operação estão inflacionados, alerta Haroldo Torres, economista do Pecege

Em meio às turbulências da guerra na Ucrânia, as usinas de cana-de-açúcar da região Centro-Sul do País se preparam para iniciar a safra (ciclo produtivo) 2022/23. 

Oficialmente, o ciclo começa em 1ª de abril e termina em 30 de março próximo, mas unidades produtoras já começaram a processar cana. 

E quais são as estimativas para a nova safra? 

Para responder e fazer projeções, Energia Que Fala Com Você, entrevista o economista Haroldo Torres, da Esalq/USP e gestor de projetos do Instituto de Pesquisa e Educação Continuada em Economia e Gestão (Pecege). 

Safra será maior

“Tudo indica que tende a ser uma safra efetivamente maior em relação à anterior. Isso porque desde outubro do ano passado estamos com recuperação dos níveis de precipitação pluviométrica o que contribui, sobremaneira, para a recuperação da produtividade agrícola na região Centro-Sul do Brasil. 

Este é o ponto positivo. Será uma safra de maior produção e recuperação de produtividade ante o observado no ciclo 2021/22.” (leia aqui mais sobre a safra recém-encerrada)

Inflação de custos

“Porém, será uma safra onde teremos uma inflação de custos bastante expressiva. 

Um dos impactos causados por esta inflação de custos é justamente o conflito entre Rússia e Ucrânia. 

Quando falamos especificamente sobre este impacto, entre Rússia e Ucrânia, o primeiro sentido está justamente no petróleo.” 

Operações ficarão mais caras

“E como estou falando sobre a ótica de inflação, quando digo que o primeiro impacto foi sobre o petróleo, o aumento do preço dele tem mantido a paridade do preço de importação da Petrobras e isso leva a um preço de diesel mais elevado. 

Consequentemente, iremos enfrentar as operações mecanizadas das usinas sucroenergéticas ficarão mais caras.”

Impactos nos derivados

“Se não bastasse a questão do diesel (que move tratores e colhedoras de cana), temos que lembrar de todos os demais derivados do petróleo. Entre eles plástico, querosene de aviação, pneus, solventes, tintas. Em todos estes itens iremos enfrentar a inflação de custos durante a safra. 

É o caso dos pneus na área de manutenção automotiva, ou dos fertilizantes na área agrícola.”

Solução para fertilizantes

“Ainda falando sobre fertilizantes, o setor sucroenergético certamente será um dos setores do agronegócio brasileiro que pode encontrar soluções internas para mitigar o impacto do aumento de custos. Afinal, a Rússia é um importante produtor global de fertilizantes à base de potássio e nitrogênio, e a guerra acabou elevando os preços, já altos, devido ao temor da diminuição da oferta. 

Só para se ter uma ideia, no ano passado a Rússia exportou 23% das importações brasileiras de fertilizantes.
O grande receio é que a redução na oferta de fertilizantes no Brasil implique em uma redução nos investimentos em renovação, no manejo da cana, o que afetará a produtividade.”

Soluções dentro de casa

“Porém o que vejo é que o setor sucroenergético é um dos poucos que irá encontrar soluções dentro de casa. 

E explico: quando olhamos para a vinhaça localizada, que é uma prática que tem crescido muito no setor nos últimos anos, ela significa uma economia muito expressiva de cloreto de potássio. Esse é justamente um dos produtos de preço mais elevado. 

Além disso, o setor pode e já vem utilizando [o subproduto rico em potássio] torta de filtro, assim como pode adquirir adubo orgânico, seja esterco bovino, cama de frango ou cama de galinha.”

Pontos positivos da nova safra: 

1 – Recuperação de produtividade 

     [Essa produtividade é medida em volume de ATR, que é a quantidade de açúcares na cana. Ou seja, quanto mais ATR, maior é a capacidade de se produzir açúcar ou etanol. Na safra 21/22, o Pecege estima que o volume de ATR ficou em 142,94 quilos por tonelada – leia mais aqui]. 

2 – Manutenção de preços

     Porém, [ela virá acompanhada de] uma inflação de custos. 

Desafios da safra

O grande desafio da safra 22/23 é a gestão dos custos de produção.

Se no ano passado o grande desafio foi na área agrícola, em termos de produção, neste ano o grande desafio estará sobre a ótica do custo. 

Isso porque se não se conseguir fazer uma boa gestão desse custo, se enfrentará impactos severos principalmente para as usinas que não se planejaram quanto para fertilizantes, quanto para diesel, pneus e para todos os demais itens.

O desafio será fazer uma safra muito positiva, e acredito que será assim, em meio a um ambiente extremamente desafiador de inflação de custos.