Blockchain é usada (com êxito) em leilões de venda de certificados de energia renovável

Criadora de plataforma baseada na tecnologia, Eletrobras Furnas já realizou dois certames

Delcy Mac Cruz

A tecnologia blockchain já é empregada para emitir e comercializar certificados de energia renovável.

A Eletrobras Furnas usa a base de armazenagem de informações de transações em lotes, chamados blocos e que formam uma corrente – daí o nome blockchain – em leilões de cessão de certificados de energia renovável.

No caso, a subsidiária da Eletrobras, atuante em geração, transmissão e comercialização em 15 estados e no Distrito Federal, criou em 2021 a plataforma RECFY.

Ela foi desenvolvida em tecnologia DLT (Distributed Ledger Technologies/Blockchain), capaz de emitir Certificados de Energia Renovável (CER), também conhecidos por Renewable Energy Certificates (REC, na sigla em inglês) para empresas comprometidas em comprovar seu consumo por energia elétrica renovável no escopo do Programa Brasileiro GHG Protocol.

Funciona assim: a RECFY emite certificados – atestados por auditor independente – que possibilitam o rastreamento da energia consumida. 

Isso permite que as empresas que adquiram os certificados cumpram suas metas de sustentabilidade, compensando as emissões indiretas de gases de efeito estufa, os GEEs, responsáveis diretos pelo aquecimento global. 

Vale destacar que cada certificado equivale a 1 megawatt-hora (MWh) de energia renovável gerada.

Leilão via blockchain tem 40% de ágio

Para se ter ideia, a companhia energética realizou dois leilões de cessão de certificados pela RECFY, que opera por meio da blockchain de ponta a ponta e emite certificados originados dos empreendimentos de Furnas registrados na plataforma.

O último dos certames foi realizado em fevereiro e a empresa explica em nota que não divulga quantidades de certificados leiloados e nem valores “para não interferir nas negociações bilaterais ainda em andamento”.

Mas revela que a negociação dos certificados registrou ágio médio de 40%, o que atesta o sucesso do certame.

Os beneficiários puderam optar pela aquisição de certificados de fonte hídrica gerados pela Plataforma RECFY ou pela Plataforma I-REC Standard.

Ao adquirir os certificados, equivalentes ao montante de eletricidade consumida, o usuário comprova a sua origem renovável.

Reforçando: esse investimento auxilia no cumprimento das metas de sustentabilidade, já que é possível a compensação das emissões de GEEs no Programa Brasileiro GHG Protocol.

“Esse leilão [de fevereiro] veio somar ao já excelente desempenho da empresa no mercado de RECs”, diz, em nota, Fabiana Teixeira, superintendente de Estudos de Mercado e Inovações de Furnas.

“As negociações para os RECs gerados em 2021 superam 2 milhões de unidades, volume quatro vezes maior que os RECs transacionados no ano anterior.”

RECFY usa plataforma Corda

O sistema RECFY é de Furnas e a iniciativa foi desenvolvida pela startup Multiledgers baseada na plataforma Corda, da R3.

Essa deverá ter sua utilização ampliada em novos serviços a serem oferecidos no futuro, destaca, em nota, a assessoria da R3.

Para a construção do RECFY, Furnas contou com o Programa de Apoio à Inovação da Multiledgers, que reuniu os principais players de blockchain atuantes no mercado nacional.

Além da Multiledgers, participaram a R3, desenvolvedora da plataforma Corda, e a BBChain. R3 e BBChain apoiaram o processo, transferindo conhecimento, validando a solução construída pelo time técnico de Furnas e ajudando na implementação da plataforma.

“O primeiro passo foi dado e felizmente estamos posicionados na vanguarda desse movimento”, relata, em nota, a CEO da Multiledgers, Marcela Gonçalves.

“Diversos certificados e ativos ambientais do setor energético, como os certificados de energia renovável e créditos de carbono, estarão, em pouco tempo, trafegando em ecossistemas descentralizados”, emenda.

Segundo ela, em poucos meses outros empreendimentos serão trazidos para dentro do ecossistema, gerando novas oportunidades de negócio.

“O próximo passo é crescer essa rede para o setor elétrico, trazendo iniciativas do setor para a blockchain, com outros serviços, porque o potencial é enorme”, diz. “Quanto maior for a adoção, mais empresas poderão participar.”