Como empresas em operação no Brasil driblam os altos custos de logística

Entre as estratégias de curto prazo estão ampliar parcerias com fornecedores nacionais e investir na verticalização

Delcy Mac Cruz

Custos elevados com fretes e contêineres, decorrentes da instabilidade econômica também promovida pela guerra Rússia-Ucrânia e do lockdown na China, têm obrigado empresas a correr atrás de estratégias para seguir as operações no Brasil.

Entre elas estão aumentar as parcerias comerciais com fornecedores nacionais e, assim, reduzir os altos custos com logísticas, caso dos fretes e dos contêineres.

Ampliar os estoques é outra opção, assim como reforçar a verticalização – ou seja, realizar desde a produção da matéria-prima até a distribuição dos produtos.

É certo que tais estratégias podem ser viabilizadas no curtíssimo prazo pelas grandes empresas.

E é o que muitas estão fazendo, mesmo porque a maioria possui contratos com clientes mundo afora e eles não podem ser interrompidos.

Tome o exemplo de empresas do setor eletroeletrônico. Levantamento da Abinee, entidade do setor, revela que em março 65% das empresas pesquisadas indicaram crescimento nas vendas/encomendas em relação a igual período de 2021.

A maior parte das entrevistadas (76%) informaram que os seus negócios foram acima (25%) ou conforme (51%) as expectativas, relata o estudo.

No tocante ao comércio internacional, 35% das entrevistadas relataram aumento das exportações comparadas com igual período de 2021. Este percentual foi 5 pontos percentuais abaixo dos 40% observados na pesquisa anterior, aponta o levantamento.

Mais pressão sobre a indústria

De seu lado, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) mantém, para os próximos meses, expectativa de baixo dinamismo da atividade industrial.

“Esse quadro resulta do forte aperto monetário implementado pelo Banco Central e dos custos elevados de produção que ainda pressionam a indústria”, relata a entidade em nota.

E assinala: “a guerra na Ucrânia adicionou pressão adicional sobre os custos de produção e adiou a normalização das cadeias globais de insumo.”

Mais: “com o retorno da Covid e dos lockdowns na China, eleva-se o risco de uma maior postergação na normalização das cadeias de suprimentos.”

É diante um firme cenário como este que é preciso correr atrás de  estratégias contra os altos custos também entre as companhias que operam no setor de energia.

Siemens: diminuir a dependência

A Siemens Energy Brasil, por exemplo, tende a regionalizar as cadeias para reduzir custos e riscos. Ao jornal Valor, André Clark, vice-presidente sênior para o hub América Latina da companhia, disse: “estamos tentando trazer mais para perto os suprimentos e diminuir a dependência de grandes transportes como os de contêiner.”

Vestas: contrato plurianual

Mesmo caminho trilha a Vestas, fabricante dinamarquesa de aerogeradores, que formalizou contrato plurianual com a LM Wind Power, fabricante de pás eólicas de Pernambuco, para fornecimento a seus empreendimentos de energia.

Em destaque no site PetroNotícias, Tommy Rahbek Nielsen, vice-presidente executivo e diretor de operações da Vestas, diz que “esta parceria é um bom exemplo de como desenvolvemos e expandimos a cadeia de fornecimento de energia eólica para impulsionar a escala necessária de energias renováveis.”

Segundo a empresa, o modelo de compartilhamento de operação de fabricação garante que os locais não fiquem ociosos e crie uma cadeia de suprimentos flexível e econômica que permita, por sua vez, que a escala industrial de ambições globais de zero líquido.

WEG: reforço de estoques

Por sua vez, a WEG, com sede em Jaraguá do Sul (SC), diversifica a carteira de fornecedores e reforça estoques de matéria-prima. Isso desde 2021, disse ao Valor André Rodrigues, diretor financeiro.

Outro aporte da companhia foi na verticalização do processo produtivo.

Boticário: com fornecedores regionais

O Grupo Boticário, que é grande consumidor de energia, também reforça as parcerias com fornecedores regionais. Em abril, anunciou investimentos de R$ 200 milhões para ampliar a produção em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba (PR).

Com o aporte, a empresa espera aumentar em até 25% a capacidade produtiva em seu centro industrial. Detalhe: ele reúne 830 fornecedores locais envolvidos diretamente na cadeia do segmento de cosméticos e beleza, como relata a Agência Estadual de Notícias.

Os exemplos da WEG, Siemens, Vestas e do Grupo Boticário reforçam como empresas em operação no Brasil tentam driblar os altos custos de insumos.

Esse drible deve seguir no mínimo pelos próximos meses até que a conturbada situação internacional e a instabilidade econômica brasileira entrem na reta final – de preferência com resultados positivos.