Como a crise hídrica gerou uma alta conta a ser paga pelos consumidores

Linhas de transmissão de energia, energia elétrica

Entre os motivos estão o acionamento de energia cara de termelétricas e empréstimo às distribuidoras

Delcy Mac Cruz

A crise hídrica de 2021, responsável pela mais grave escassez de água nos reservatórios de hidrelétricas em 91 anos, enfim foi para a memória.

É certo que fatos e estratégias ajudaram o País a se livrar de episódios como o racionamento de 1991.

A indústria, por exemplo, operou com ociosidade – por conta da economia enfraquecida em função da pandemia -, o que exigiu consumo menor de energia e aliviou a demanda. Também temos agora oferta substancial de eletricidade de fontes renováveis como eólica (vento) e fotovoltaica (solar) – que era incipiente em 91.

E houve a ação do governo que acionou geradores disponíveis e que, mesmo a custos saltitantes, garantiram a regularidade na oferta. 

No mais, desde outubro as chuvas registram frequência pra lá de vitais nas cabeceiras dos reservatórios. Essa incidência entrou firme em 2022.

Para se ter ideia, em 18 de abril o Operador Nacional do Sistema (ONS) registrava 66,19% de água nos reservatórios da região Sudeste/Centro-Oeste, onde ficam algumas das principais hidrelétricas do País. Em agosto de 2021, no auge da crise energética, o armazenamento estava em pouco mais de 22%.

É sinal de que o Brasil está tranquilo em termos de geração de energia hidráulica, responsável por mais de 60% da eletricidade que chega ao consumidor.

No entanto, por mais que a tecnologia ajude, não dá para garantir normalidade 100%.

E tem mais: apesar da aparente calmaria, há um custo a ser pago pela crise hídrica.

Motivos da alta conta a ser paga

No caso, o pagamento caberá à sociedade como um todo. E resulta não só do acionamento das caras termelétricas como de ações que ainda são tomadas na esfera do governo federal.

A proposta deste conteúdo é justamente destacar os motivos do porquê da conta alta em função da crise hídrica.

Em primeiro lugar, é preciso destacar que mesmo com os valores turbinados das tarifas tarifárias, elas são insuficientes para cobrir os custos da compra de energia no período da escassez, segundo a Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee).

Em fevereiro, a entidade estimava que o déficit no fim de abril chegaria a R$ 3,1 bilhões.

Para minimizar esse montante, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) calcula a entrada de R$ 1,5 bilhão por conta dos recursos das bandeiras.

A diferença será compensada por empréstimo avaliado em R$ 5,6 bilhões pela Agência.

E depois? Bom, depois disso o repasse do valor emprestado segue para as tarifas dos consumidores.

Leilão emergencial

Outro peso-pesado nos custos da crise hídrica é o leilão para contratação emergencial de energia.

Anunciado em outubro pela Aneel, o certame foi aprovado “como parte das medidas de otimização do uso dos recursos hidroenergéticos e para o enfrentamento da atual situação de escassez hídrica”, relata a Agência.

Com o objetivo de suprir o mercado de energia até 2025, o leilão firmou 17 contratos de compra que custarão R$ 14 bilhões por mês nos próximos três anos.

Tem um detalhe: o leilão foi anunciado e realizado quando o País saía da crise hídrica. “Poderíamos ter esperado um pouco mais”, disse ao jornal Valor Rui Altieri, presidente da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE).

Em outras palavras, se esperasse mais talvez não fosse necessário efetivar os 17 contratos. E, assim, o valor do leilão seria menor.

Em todo caso, não adianta chorar e quem bancará a conta final é o consumidor.

Reajuste do valor da bandeira

Um terceiro exemplo de custo desta novela diz respeito às bandeiras tarifárias.

A vermelha patamar 2, mais cara delas e que deixou de ser cobrada em 16 de abril, deve ter o valor reduzido de R$ 9,492 para R$ 9,330 a cada 100 kWh consumido.

Sim, é uma boa notícia.

Mas a amarela e a vermelha, as outras duas cores das bandeiras, deverão ter os valores aumentados (leia aqui).

Sendo assim, o consumidor deve novamente preparar o bolso porque no caso da amarela a cada 100 kWh pagará R$ 2,927, contra atuais R$ 1,874.

E, no caso, da vermelha patamar 1, o valor sairá de R$ 3,971 para R$ 6,237 a cada 100 kWh.

A proposta de reajuste está em consulta pública aberta pela Aneel para ser discutida pelo setor até o dia 04 de maio.

Em que pese os exemplos anteriores, há pelo menos um outro para encarecer ainda mais as contas.

É que um dos principais encargos da conta de luz, representado pela Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), deverá sofrer déficit em seu orçamento em 2022 da ordem de R$ 28,791 bilhões, relata o Valor.

Para enfrentar este déficit, a arma a ser usada é reajustar o encargo na conta de luz. A previsão é de um aumento de 47% ao longo do ano.

Vale lembrar que  tanto esse quanto outros reajustes mencionados neste conteúdo podem sofrer alterações – mas uma coisa é certa: que eles virão, isso é certo.