Em plena expansão, etanol de milho deverá ter a produção duplicada em oito anos

Mato Grosso e Goiás concentram a nova fronteira do biocombustível, que deve chegar a 9 bilhões de litros anuais a partir de 2030

Mato Grosso e Goiás concentram a nova fronteira da produção brasileira de etanol, seja ele anidro (misturado à gasolina) ou hidratado (para veículos flex). 

Neste 2022, a previsão é de que estes estados liderem uma produção já estimada em 4,5 bilhões de litros. O detalhe é que todo esse volume é feito a partir do milho, e não da cana-de-açúcar, tradicional matéria-prima do etanol. 

É preciso destacar que a cana segue à frente, responsável por 89% de todo etanol fabricado pelos estados da região Centro-Sul, onde são gerados 90% do açúcar e do etanol feitos em território nacional. 

Os 89% equivalem a 24,08 bilhões de litros fabricados no ciclo (safra, no jargão do setor) realizado entre abril de 2021 a igual período deste ano. 

Os dados são da UNICA, entidade representativa do setor. Segundo ela, houve quebra de 13,36% na produção do biocombustível ante a safra anterior, devido, principalmente, à menor oferta de cana em decorrência de seca e até de geada. 

Já o etanol de milho fechou o período da safra canavieira com oferta de 3,47 bilhões de litros, volume que, conforme a UNICA, representa alta de 34,33% sobre o ciclo anterior. 

Entre os responsáveis por este crescimento está a entrada de novas usinas produtoras, mas, também, da oferta e qualidade do cereal que, ao contrário da cana, seguiram firmes e fortes ao longo de 2021.

Produção nos 365 dias do ano

Tem outro detalhe aí: enquanto a safra canavieira dura em média dez meses, a do milho pode ser realizada nos 365 dias do ano. 

Isso faz uma enorme diferença. 

Em primeiro lugar, porque o biocombustível do cereal ajuda a garantir a oferta de etanol no mercado, bem como colabora com a regulação dos estoques justamente nos primeiros três meses do ano, quando as usinas do Centro-Sul estão em manutenção preparatória para a próxima safra. 

“É grande a contribuição do etanol de milho, ele complementa a oferta”, disse em entrevista coletiva no começo de dezembro Antonio de Padua Rodrigues, diretor técnico da UNICA. 

Conforme ele, com a entrada de duas novas usinas neste ano, a oferta de etanol de milho deve superar 4,6 bilhões de litros. “Significa algo como 60 milhões de toneladas de cana equivalentes”, frisou. 

Na coletiva de dezembro, a diretoria da UNICA divulgou que na safra no Centro-Sul cinco unidades produziram etanol de cana e de milho, enquanto seis outras operaram exclusivamente com cereal. 

Em termos produtivos, 12,6% da produção de etanol até 01/12 tiveram o milho como matéria-prima. 

Confira projeção da UNICA: 

Produção 100% maior em 8 anos

Em termos produtivos, as unidades de etanol de milho seguirão como reforço na oferta, já que os esperados 4,5 bilhões são 30% acima dos 3,45 bilhões de litros fabricados em 2021. 

Mas não para por aí. 

A União Nacional do Etanol de Milho (Unem), entidade representativa de 90% da produção do biocombustível no Brasil, estima que a fabricação na safra 2030/31 saltará para 9,65 bilhões de litros. 

Trata-se de uma expressiva alta de 180% sobre os 3,45 bilhões de litros ofertados no ciclo 2021/22 (leia mais aqui).

Já na comparação com a produção deste ano, a projeção de 2030 irá superar a casa de 100%. 

Vale destacar que essa estimativa para daqui a oito anos é respaldada pela entrada em cena de novas unidades produtoras e, também, por ampliações. 

Confira informações de unidades de etanol de milho:

A FS possui duas unidades em operação (Lucas do Rio Verde e Sorriso, ambos no MT) com capacidade de 1,4 bilhão de litros/ano.

Implanta a terceira unidade em Primavera do Leste (MT), com capacidade de 585 milhões de litros/ano. 

E tem planos de mais 3 até 2026, relata a empresa. 

Com duas unidades (nos municípios de Sinop e Nova Mutum, no MT), a Inpasa Brasil investe atualmente na planta de Nova Mutum e, no primeiro semestre de 2023, espera ter capacidade total de 2 bilhões de litros/ano.

Empreende a terceira unidade no município de Dourados (MS). 

A ALD Bioenergia Deciolândia possui unidade em Nova Marilândia (MT) e tem capacidade de produção de 115 milhões de litros/ano. 

A unidade Neomille é subsidiária da CerradinhoBio, tem capacidade de 240 milhões de litros ao ano e fica localizada em Chapadão do Céu (GO), onde também está a unidade de etanol de cana do Grupo. 

A SJC Bioenergia produz etanol de milho na Usina São Francisco (em Quirinópolis, GO), no modelo flex (produz o biocombustível com cana e com o cereal). A empresa controla também a Usina Rio Dourado (em Cachoeira Dourada, GO). No geral, a capacidade é de produção de 500 milhões de litros/ano. 

A Usimat (em Campos de Julho, MT) iniciou as operações em 2012 no modelo flex. Atualmente, opera no modelo compartilhado (processa juntos milho e cana durante a safra canavieira). A capacidade anual supera 150 milhões de litros. 

Localizada em São José do Rio Claro (MT), a Destilaria Libra opera no modelo flex (cana e milho). Tem capacidade de 600 mil litros de etanol de cana. 

Produtora com capacidade para 400 mil litros diários de etanol de milho, a Etamil Bioenergia está localizada em Campo Novo do Parecis (MT), e é controlada pela Usina Coprodia

A Usina Porto Seguro, localizada em Jaciara (MT), produz etanol no modelo flex (cana e milho). Tem capacidade para processar 400 toneladas por dia. 

Implantada em 2015, a Destilla Bioenergia está localizada em Itaúba (MT). É considerada mini-usina com capacidade de 200 litros/hora de etanol hidratado a partir do milho. 

Fontes protéicas e descarbonização

Em que pese a expressividade do etanol de milho, as unidades também fabricam outros disputados coprodutos: o DDG (sigla em inglês para grãos secos e destilados) e o DDGS (grãos secos destilados com solúveis). São fontes protéicas que  ganham cada vez mais espaço na composição das dietas de bovinos (leia mais a respeito aqui). 

As unidades de etanol do cereal também têm papel estratégico na redução de emissões de dióxido de enxofre (CO2), um dos principais responsáveis por gases de efeito estufa. 

Enfim, seja pelo seu papel ambiental e de nutrição animal, o etanol de milho atesta que veio para ficar e ajudar a consolidar o Brasil como polo mundial de produção de biocombustíveis.