Por que o hidrogênio verde só tende a crescer no Brasil

Ele é produzido a partir de fontes renováveis, tem baixa emissão de gases de efeito estufa e pode ser armazenado

Delcy Mac Cruz

Marrom, cinza, azul e verde. Cada cor representa um tipo de hidrogênio, o H, elemento químico mais leve do universo, capaz de formar um gás com diversas utilizações.

Tradicionalmente ele é empregado no refino de petróleo, como matéria-prima de fertilizantes e de gases hospitalares e industriais.

E também pode ser usado como fonte de energia. Melhor ainda: a depender do processo de produção, pode ter baixo ou nulo carbono. Outra qualificação: atua como vetor para armazenamento de energia, abrindo espaço em sua produção  para fontes como eólica e solar, entre outras.

Vale destacar, de forma bem resumida, que o hidrogênio marrom é produzido de carvão mineral sem captura, utilização e sequestro de carbono (CCUS). O cinza, que também não opera essa sigla, é feito do gás natural.

Já o azul, também produzido a partir de gás natural, possui CCUS. E, repleto de CCUS, tem-se o verde, feito de fontes renováveis variáveis, particularmente energias eólica e solar, via eletrólise da água.

Eletrólise? O que é isso? É uma maneira direta de obter hidrogênio e oxigênio no estado gasoso com elevado grau de pureza – leia aqui mais a respeito.

O hidrogênio verde é a bola da vez. E o motivo dessa avaliação é bem simples. 

Em um mercado global afetado pelas consequências da invasão da Rússia na Ucrânia, mas que também precisa se atentar à redução de gases causadores do aquecimento global, as fontes renováveis são apostas certeiras.

O Brasil, no caso, nada de braçadas neste oceano até porque mais de 80% de sua matriz energética é de fontes renováveis – destaque aí para a hidráulica, matéria-prima das usinas hidrelétricas.

Além disso, o País tem vasta oferta de sol e vento, base para as geradoras fotovoltaicas e eólicas.

É certo que as térmicas a gás combustível e diesel – fortes emissoras de gases de efeito estufa – também integrem a matriz. Mas elas têm importância bem relativa.

Confira o peso dos renováveis na geração, em recorte de 12/04/22 do Operador Nacional do Sistema (ONS) com a carga (soma do consumo de energia com as perdas na rede):

Fonte: ONS

Investimentos de US$ 200 bilhões

De volta ao hidrogênio verde, ele é visto como recurso com capacidade para o acoplamento dos mercados de combustíveis, elétrico, industrial, entre outros.

E é por isso que este tipo de H entrou no radar da demanda e, também, da oferta.

Em estudo de novembro de 2021, a empresa de consultoria McKinsey destaca que o H verde brasileiro contribuirá para a descarbonização da matriz energética mundial e criará oportunidade de investimentos de US$ 200 bilhões no País ao longo de 20 anos.

Tá bom. Mas quando virá a produção efetiva do H2V (H2 de hidrogênio e V de verde)?

Em tempo: não há produção efetiva atual.

O Ceará, especificamente São Gonçalo do Amarante, é a sede de empreendimento deste combustível do futuro. É neste município que EDP Brasil, líder em GTDC, implanta unidade-piloto de produção de H2V.

A usina utilizará energia fotovoltaica e terá capacidade para produzir 22,5 quilos (kg) de hidrogênio por hora. O investimento previsto é de R$ 41,9 milhões, destaca a Revista Fapesp. E as atividades produtivas estão previstas para até o fim deste 2022.

Já a Companhia Energética de São Paulo (CESP), controlada pela Auren, possui projeto de P&D sobre armazenamento de energia por meio do hidrogênio verde.

No caso, o projeto é financiado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e, segundo a assessoria da CESP, integra o Complexo de Energias Alternativas Renováveis da UHE Porto Primavera, no interior paulista.

Em síntese, o projeto visa a geração do combustível por meio da eletrólise da água e, o hidrogênio produzido, é armazenado sem resíduo poluente.

Já a Usina Hidrelétrica Itumbiara (MG/GO), controlada por Furnas Centrais Elétricas, é sede de uma planta de estudos de geração de hidrogênio verde inaugurada em dezembro de 2021.

Em relato, Furnas destaca que a usina foi escolhida por apresentar bons indicadores para geração solar e por possuir reservatório de acumulação adequado para a instalação de painéis fotovoltaicos flutuantes (leia mais aqui).

Enfim, EDP, CESP e Furnas estão entre os protagonistas de um mercado de hidrogênio verde que só tende a crescer no Brasil.