Segmentos não regulados de energia entram no radar de investimentos

Foco de empresas é migrar aportes para filões atraentes como o mercado livre e a geração distribuída

Delcy Mac Cruz

Os segmentos não regulados de energia elétrica entram de vez no radar de empresas atuantes no setor.

Antes de seguir adiante, convém destacar que os ‘não regulados’ integram, por exemplo, os mercados de geração distribuída (GD), comercialização no mercado livre e serviços de valor agregado.

Enfim, segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), tem-se o Ambiente de Contratação Livre (ACL), no qual são realizadas operações de compra e venda de energia por meio de contratos bilaterais livremente negociados.

Entra aí o mercado livre.

Podem atuar nele os chamados consumidores livres e os especiais. Os primeiros devem possuir demanda contratada de no mínimo 2 megawatts (MW), enquanto os especiais devem ter demanda igual ou maior que 500 quilowatts (kW) e menor que 2 MW, explica a Abraceel, entidade representativa dos comercializadores de energia.

Em resumo: os dois tipos abrangem os grandes consumidores. Exemplo: 85% do consumo industrial de energia está no mercado livre que, segundo a entidade, soma hoje, entre todo tipo de cliente, 27 mil unidades consumidoras do País.

Trata-se, portanto, de um filão pra lá de interessante para quem opera em GTDC.

Abertura de mais espaço

Mas não que o mercado regulado não seja atraente.

O Ambiente de Contratação Regulada (ACR), no qual são realizadas operações de compra e venda de energia entre consumidores e distribuidores, conforme regras e procedimentos geridos pela Aneel, predomina no mercado de eletricidade brasileiro.

Entretanto, ele tende a abrir mais espaço para o mercado livre. É que tramita no Congresso Nacional projeto de lei que prevê a abertura total desse mercado (leia mais aqui).

Não dá para estimar uma data, mas que essa abertura virá é apenas questão de meses, ou de anos.

De seu lado, a Abraceel tem estudo recente no qual prevê que até 2035 o mercado livre possa gerar R$ 210 bilhões de redução nos gastos com energia elétrica, 642 mil empregos e um desconto médio de até 27% na compra de energia.

Por aí se vê que o hoje não regulado mercado livre ocupará mais e mais espaço do mercado cliente-distribuidora,  traduzido pelo ACR.

Avanço da geração distribuída

O crescente mercado de não regulados também avança com a geração distribuída, a GD.

De forma resumida, essa representa a modalidade onde o consumidor instala equipamento para produzir a própria energia e injeta o excedente na rede.

Para se ter ideia do peso da GD, a sua potência instalada chegou a 10 gigawatts (GW) no fim de março, enquanto era de 9 GW dois meses antes, aponta a Associação Brasileira de Geração Distribuída (ABGD).

“O País deverá ultrapassar a marca de 15 GW ao fim de 2022”, destaca em nota Guilherme Chrispim, presidente da entidade.

Em termos comparativos, os 15 GW representam 20% da carga (consumo e perdas na rede) registrada na tarde de 18 de abril, que foi de 71 GW, detalha relato do Operador Nacional do Sistema (ONS).

Bom saldo, não?

Principalmente levando em conta que, conforme a associação do setor, a GD é formada em 97% por energia solar, seguida de termelétrica (1,2%), central geradora hidrelétrica (0,87%) e eólica (0,18%).

Ou seja, não fosse pelas termelétricas (que podem ser acionadas por óleos e gás) e quase toda a energia de geração distribuída é renovável e ajuda a reduzir as emissões de gases de efeito estufa, os GEEs, causadores do aquecimento global.

Quem planeja investir

Os exemplos de empresas que pretendem investir em energia renovável no Brasil são diariamente divulgados pela mídia.

Entre elas, muitas também focam aportes em não regulados. Veja o caso do Grupo Energisa, que planeja investir R$ 14 bilhões até 2026 para expandir suas atividades não reguladas – geração distribuída, comercialização no mercado livre e serviços de valor agregado.

Para tanto, a companhia criou uma nova unidade de negócios para englobar as operações, com o nome de (Re)energisa (leia mais aqui).

Outro exemplo está em Minas Gerais, que sedia uma série de usinas fotovoltaicas da Bulbe Energia. Criada em 2017, a empresa é focada em investir na construção e operação de solares no modelo de geração distribuída.

A partir de protocolo assinado em 2021 com o Governo de Minas, a Bulbe planeja investir R$ 450 milhões em 30 usinas, relata a Agência Minas.  

Assim como a Bulbe e a Energisa, outras companhias atuantes em GTDC focam investimentos em geração que, segundo o Plano Decenal de Expansão de Energia do Ministério de Minas e Energia (MME), prevê investimentos de R$ 3,5 trilhões até 2031.

Desse montante, R$ 2,7 trilhões devem ficar para o setor de petróleo e gás, grandes demandantes de investimentos.

Mas R$ 530 bilhões irão para geração e transmissão de energia e o destaque aí é a GD, que, conforme o MME, deverá crescer 367% até 2031.