Participação das hidrelétricas deve cair pela metade dentro de nove anos

Escassez hídrica é um dos motivos, segundo documento de empresa ligada ao Ministério das Minas e Energia

Delcy Mac Cruz

As hidrelétricas deixarão de ser as grandes responsáveis pela oferta de eletricidade brasileira. No começo de 2000, elas representavam 83% da capacidade instalada no país. Essa fatia cairá para menos da metade em 2031.

A previsão consta do Plano Decenal de Energia (PDE), elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), do Ministério de Minas e Energia, com informações entre 2021 e projeções para 2031.

Mas qual o motivo de as hidrelétricas saírem de 83% para 45% da geração de energia elétrica?

Na verdade, são vários os motivos.

Entre eles está a situação de escassez hídrica registrada no segundo semestre de 2021. Neste caso, relata a EPE, o ‘sumiço’ da água evidenciou como os diferentes usos da água impactam na gestão dos reservatórios.

Melhor dizendo: as várias aplicações do líquido ajudam na falta de matéria-prima nos reservatórios e, assim, a geração hidrelétrica corre novos riscos.

Detalhe: nos últimos oito anos, a energia que pode ser produzida com a vazão de água de um determinado rio (energia afluente) tem acumulado consecutivos valores abaixo da média.

Mas se as hidrelétricas vivem este drama, como fica o abastecimento de eletricidade?

 

Em primeiro lugar, é preciso destacar que, em termos de geração atual, as hidrelétricas reinam como antes.

Para se ter ideia, balanço do Operador Nacional do Sistema (ONS), que gerencia o mercado de energia no Sistema Interligado (SIN) – que leva a eletricidade até o consumidor – indica que a fonte hídrica é responsável por 82% de toda a produção de energia.

Os 82% constam do balanço de carga (soma do consumo de energia com as perdas na rede) de 04 de abril, empregado para ilustrar este conteúdo.

Neste balanço, enquanto a geração hidráulica somava 67,4 mil megawatts (MW), a fonte eólica (vento), segunda colocada, ficou em 7,3 mil MW.

Confira o peso da fonte hidráulica (hidrelétrica):

Tendências para evitar apagões

Diante disso, as usinas hidrelétricas seguirão líderes no ranking de geração. Ao menos pelos próximos anos.

No entanto, é preciso lembrar que o documento decenal da EPE aponta tendências estratégicas justamente para que não ocorram apagões.

E entre essas tendências está o declínio da fonte hídrica.

Agora outra pergunta: se essa fonte reduz presença, o que teremos como substitutos?

Ah, sim. Como relata a EPE, “é importante destacar a diversificação da matriz a partir de investimentos em fontes renováveis além das hidrelétricas, como eólica, biomassa e fotovoltaica (sol), complementada pela expansão de geração despachável, como as termelétricas a gás natural.”

Vamos lá às previsões da EPE: a geração solar deve sair de 2% no fim de 2021 para 4% em 2031; enquanto a geração eólica sairá de 10% para 11%.

Tem também a autoprodução de energia e a geração distribuída renovável, nas quais o consumidor produz sua própria energia na maioria das vezes por meio de placas fotovoltaicas. Essa, cuja participação é de 8%, saltará para 17% da matriz em 2031.

Outra fonte a ser contabilizada na matriz é a nuclear, hoje com 1% de participação e que deve ir a 2% daqui nove anos.

Mas em que pese a perda de peso na oferta geral de energia, as hidrelétricas seguirão prioritárias na matriz.

Sim, porque as estimativas do plano dão conta de que em 2031 o parque gerador terá capacidade de 275 gigawatts (GW), ou seja, 75 GW acima da oferta atual.

Sendo assim, a expansão de energia hídrica é mais do que necessária.

É que, apesar da questão da água, as usinas existentes podem ampliar o potencial de geração a partir de retrofits (investimentos em modernização). E, como já nasceram gigantes, também poderão colaborar para que o Brasil chegue ao parque gerador projetado pela EPE.