Possível gargalo de transmissão desafia a crescente geração de energia renovável

País corre sério risco de estar impedido de transportar toda a eletricidade solar e eólica do Nordeste

Delcy Mac Cruz

A geração atual de energia elétrica no Brasil é mais do que suficiente para atender a demanda.

Para se ter ideia, na primeira quinzena de março foram gerados 74.405 megawatts-médios (MWm), 6% ou 4.400 acima do consumo em igual período, segundo relata a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE).

As informações dizem respeito ao Sistema Interligado Nacional (SIN), que controla a produção brasileira de eletricidade, e podem mudar positiva ou negativamente de uma hora para outra.

Isso porque há hoje a guerra na Ucrânia, que impacta até agora o mercado de petróleo e gás, bem como se teve, no segundo semestre de 2021, a crise hídrica, que cortou a geração das usinas hidrelétricas e impôs custos que todos iremos pagar por conta da cara – e poluente – geração de energia por termelétricas a diesel e a óleo combustível.

Entretanto, em que pese o quadro de aparente normalidade do sistema de energia elétrica do País, há outro porém ameaçador.

Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), do Ministério de Minas e Energia (MME), estados da região Nordeste deverão ter em 2026 nada menos do que 29.508 megawatts (MW) de potência instalada em energia solar e eólica. O montante projetado é sete vezes acima da potência de mesmas fontes hoje existente na região.

Indo além: também em 2026 a EPE estima que em todo o País a potência instalada saltará de atuais 8.562 MW para 51.886 MW. Pois mais da metade (56%) desse montante virá de usinas solares e eólicas do Nordeste.

Até aí, nada demais.

Afinal de contas, o sol e o vento são característicos de vários estados nordestinos. O problema é transportar toda essa energia para regiões do país nas quais o consumo é maior, caso dos estados do Sudeste.

Esse transporte é feito por linhas de transmissão que cortam praticamente todo o território nacional. E é aí que mora o problema.

O sistema elétrico pode enfrentar gargalos nos próximos anos se o crescimento de fontes renováveis (solar e eólica) não for acompanhado de investimentos em transmissão.

Mas se é assim, por que então não se implanta mais linhas de transmissão?

A saída, sim, é esta. Mas existe todo um emaranhado que burocratiza e embaralha a situação.

No passado, os projetos de transmissão entravam em operação mais rápido que as hidrelétricas e termelétricas. No entanto, com o aumento da fatia das renováveis na matriz energética, a lógica se inverteu.

“A interface entre os projetos ficou mais complexa, pela incerteza na localização das novas usinas e pela maior rapidez na implementação dos empreendimentos [de geração], assim como pelas dificuldades nos processos de licenciamento da transmissão”, disse ao Valor Econômico, Luiz Barroso, ex-presidente da EPE e presidente da consultoria PSR.

Existem algumas estratégias para tentar conter o problema que se avizinha.

Uma delas é postergar os prazos de início de geração de usinas de fontes renováveis do Nordeste. Até porque elas correm o risco de entrarem em operação, haver demanda a centenas de quilômetros, no Sudeste, mas essa eletricidade simplesmente não tem como ser transportada.

A estratégia, que exige tempo até ser implantada, são os leilões de concessão do governo geridos pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

O primeiro deles de 2022 esperava, até o fim de março, pelo aval do Tribunal de Contas da União (TCU), e a programação é de que seja realizado em 30 de junho na sede da B3, a bolsa de valores de São Paulo.

Trata-se da licitação de 13 lotes para a construção e a manutenção de 5.291 quilômetros de linhas de transmissão e de 6.260 megavolt-ampéres (MVA) em capacidade de transformação de subestações.

Conforme a Aneel, os empreendimentos, com prazo de conclusão de 42 a 60 meses, irão contemplar os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Bahia, Espírito Santos, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Rondônia, Santa Catarina, São Paulo e Sergipe (leia mais a respeito aqui).

A expectativa de investimentos é de R$ 15,3 bilhões que, segundo a Aneel, serão gerados durante a fase de implantação das linhas de transmissão.

Geradoras e consumidores de energia ficam na torcida pelo êxito do leilão e, se possível, que a implantação seja finalizada antes do prazo final.

Senão, é bem possível que o País tenha eletricidade renovável sendo feita no Nordeste, mas que não consiga chegar ao consumidor final localizado em estados de outras regiões.